Quem? Eu?

Na Idade Média apenas os leitores mais habilidosos conseguiam ler “mentalmente”, sem dizer em voz alta aquilo que estava escrito. Acho que depois que você liga a voz dentro da sua cabeça ela resolve nunca mais ir embora.

Às vezes, quando acabo imaginando como seria a minha vida como uma série de televisão — e o faço com uma certa freqüência — acabo por lembrar que provavelmente seria coadjuvante no meu próprio seriado.
O lado de bom de ter amigos maravilhosos é óbvio, — ter amigos que são maravilhosos, duh — mas as pessoas raramente falam do lado ruim, talvez porque não encontrem um, mas eu, assim como a maior parte da população mundial que conhece gente legal, sempre tive um pequeno problema com isso:  meus amigos são legais demais e eu sou só eu, mediana, comum e sem sal. Todo mundo sabe que eu não era a mais inteligente do grupo, não fui a primeira a conseguir sair finalmente daquela cidade, não era a mais cult, a mais alternativa, a mais engraçada, sociável, nunca fui a melhor em nada, eu sempre fui a que estava lá. Eu sou a suplente para me interpretar.
Eu tento gostar de mim mesma. Às vezes dá certo. Eu sou igual demais a todo mundo, às vezes é até bom, mas na maior parte do tempo é ruim. É…
Costumo ter vergonha de tudo, de mim, dos outros, do que eu disse quando tinha cinco anos e do que vou dizer daqui a uns 10 minutos. Tenho vergonha de gostar do que gosto e de gostar de quem gostei. Tenho vontade de começar do zero todo dia pelo menos cinco vezes, mas sempre sabendo que não faria muita diferença no fim porque, antes que o dia terminasse, já estaria com vergonha de novo. Tenho medo de deixar as pessoas saberem demais de mim porque se elas se lembram, vão me lembrar também e é mais difícil de fugir assim.
As coisas podem ser boas, ruins, ou elas podem ser eu.
Publicado em Uncategorized | Marcado com , | Deixe um comentário

Sei lá, sei lá.

— É estranho. Quanto mais eu fico mais quero ficar e eu nunca esperei que fosse me sentir assim, sabe?

— Não. Não sei.

— Ah.

— É.

— É só que eu sinto falta, mas não de tudo, então não quero ir. Acabei mudando e sabendo mais de mim do que sabia antes de me tornar uma pessoa completamente diferente.

— Você mudou?

—É, acho que nos dois sentidos. Eu estava lá e agora estou aqui, sinto saudade, mas em vez de voltar quero trazer tudo pra cá.

— Acho que entendi.

— Eu fiz amigos. Amigos mesmo. Mais do que todos que já tive. Mais do que eu achei que poderia fazer um dia, é estranho, não imaginava.

— Nem eu.

— É…

— É.

Publicado em Uncategorized | Marcado com , | Deixe um comentário

Mr. Brightside

Dizem que quem ama é feliz na felicidade do outro. Ela está feliz, eu não fico feliz sem ela. Eu poderia fazê-la melhor, sentí-la melhor, sorrí-la melhor, aquele sorriso que tanto devia ser meu e de mais ninguém.
Ela aproxima e afasta e finge que não sabe que eu rio e choro e sofro calado, que sonho acordado e prometo parar, como apenas um vício antigo que eu pudesse largar. Um vício que também me gosta, que me procura à procura de abraços, mas não me deseja como eu gostaria que o fizesse.
Repreendo-me pois sei que é errado, sei que não devia, mas ela nunca sentiria falta dele enquanto estivesse comigo.

I never…

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O que tem pra hoje.

 

– Sabe o que é a vida pra mim?
– O que?
– A vida parece aquela hora em que você chega em casa, depois de um dia cheio e cansativo e pergunta: “o que tem pro almoço?” e quem ta fazendo responde algo que você detesta, então você fala: “mas eu detesto isso!” e respondem “ok, mas é o que tem pra hoje”.
– E o que tem isso a ver?
– A vida, é o que tem pra hoje.
Publicado em Uncategorized | 3 Comentários